Não muito longe da minha casa existe uma igreja em cujo exterior vários sem-abrigo se reúnem. Por volta das 20h00 chega diariamente uma carrinha que distribui refeições quentes por todos. Para alguns, provavelmente é a única do dia. Ontem passei por lá precisamente a essa hora. Rapidamente perdi a conta aos que aguardavam pela sua vez, visto serem tantos. E de imediato me perguntei que sequência de acontecimentos podem levar uma pessoa a ter de viver na rua. Serão circunstâncias que só o azar pode explicar? Será o resultado de mal provocado por terceiros ou será algum tipo de mal auto-infligido? Será a auto-destruição através de vícios a principal origem da perda de um bem tão essencial como um tecto? Costumo dizer que quando somos os nossos próprios inimigos, os estragos podem ser bastante superiores aos causados por outros, mas ao ver esta realidade assim tão próxima dos olhos, tenho dificuldade em perceber em como alguém pode causar tanto dano a si mesmo.
Há 8 anos atrás participei pela primeira e única vez no almoço de Natal organizado pela Comunidade Vida e Paz para os sem-abrigo na Cantina da Universidade de Lisboa. Colocaram-me na zona da distribuição de roupa. Centenas de pessoas passaram por lá. Muitas delas não eram sem-abrigo mas idosos com pensões muito pequenas que mal davam para pagar a conta da farmácia. Lembro-me sobretudo de um senhor extremamente educado que me perguntou se havia camisas. Tinha casa, mas para mantê-la, não se podia dar ao luxo de comprar uma única peça de roupa ou recusar durante 3 dias, um almoço grátis na Cantina da Universidade.
Por causa de histórias destas e de outras semelhantes, fui no primeiro dia e não tive coragem de regressar nos seguintes. Porque não é fácil contactar com histórias com fins tão pouco felizes.


