Hoje é noite de deambular por Alfama, Castelo e S. Vicente. Ir a bailes, comprar manjericos e sobretudo, dedicar-me aos dois F's: febras e farturas. No fim da noite terei estas artérias um pouco mais entupidas. Amanhã contarei como foi.
Uma grande noite de Santo António para todos!
segunda-feira
Não muito longe da minha casa existe uma igreja em cujo exterior vários sem-abrigo se reúnem. Por volta das 20h00 chega diariamente uma carrinha que distribui refeições quentes por todos. Para alguns, provavelmente é a única do dia. Ontem passei por lá precisamente a essa hora. Rapidamente perdi a conta aos que aguardavam pela sua vez, visto serem tantos. E de imediato me perguntei que sequência de acontecimentos podem levar uma pessoa a ter de viver na rua. Serão circunstâncias que só o azar pode explicar? Será o resultado de mal provocado por terceiros ou será algum tipo de mal auto-infligido? Será a auto-destruição através de vícios a principal origem da perda de um bem tão essencial como um tecto? Costumo dizer que quando somos os nossos próprios inimigos, os estragos podem ser bastante superiores aos causados por outros, mas ao ver esta realidade assim tão próxima dos olhos, tenho dificuldade em perceber em como alguém pode causar tanto dano a si mesmo.
Há 8 anos atrás participei pela primeira e única vez no almoço de Natal organizado pela Comunidade Vida e Paz para os sem-abrigo na Cantina da Universidade de Lisboa. Colocaram-me na zona da distribuição de roupa. Centenas de pessoas passaram por lá. Muitas delas não eram sem-abrigo mas idosos com pensões muito pequenas que mal davam para pagar a conta da farmácia. Lembro-me sobretudo de um senhor extremamente educado que me perguntou se havia camisas. Tinha casa, mas para mantê-la, não se podia dar ao luxo de comprar uma única peça de roupa ou recusar durante 3 dias, um almoço grátis na Cantina da Universidade.
Por causa de histórias destas e de outras semelhantes, fui no primeiro dia e não tive coragem de regressar nos seguintes. Porque não é fácil contactar com histórias com fins tão pouco felizes.
domingo
No final dos anos 80 a indústria farmacêutica lançou o Prozac no mercado para tratar depressões graves. Eu cá acho que foi a Panrico que criou os melhores anti-depressivos de todos os tempos. Estes meninos curam tudo o que é tristeza:
Não é novidade para ninguém que os contos de fadas estão cheios de episódios de terror e violência. Na minha humilde opinião o mais terrífico é o conto do Hensel e Gretel. Não sei quem é que teve a brilhante ideia de adormecer crianças narrando-lhes a triste história dos 2 irmãos que se perderam na floresta e foram parar à cabana de uma bruxa canibal, mas só lhe posso tecer críticas. O conto da princesa e do sapo também não é agradável ao ouvido. E temo por aquelas meninas crédulas e ingénuas que um dia possam ouvir este romance de cordel e desatar a beijar tudo o que é sapo, na esperança que se dê uma extreme makeover no bicho e... cá vai príncipe!
Mas não nos desviemos do assunto que aqui me traz e falemos da Branca de Neve, história também ela repleta de crueldade. Ontem fui ver o filme. Um realizador e um argumentista juntaram-se e surge uma versão cinematográfica, para maiores, vá, de 14 anos. O tema central da trama: a estética. Uma mulher quer permanecer bela e jovem para sempre. Nada de novo até aqui. A L'Oreal e a Garnier andam há anos a trabalhar nesse sentido. Entretanto, Oscar Wilde, um homem à frente do seu tempo, resolve colocar pela primeira vez na literatura, este desejo profundo do mulherio numa personagem masculina. Surge O Retrato de Dorian Gray. Este, tal como a Rainha Má da Branca de Neve não quer nada com a velhice e o reumático. Ele deposita as suas rugas num retrato, ela, segundo o filme, consome a energia de novatas e uma vez compostinha, pergunta a opinião de um espelho sobre a sua beleza. O espelho, (com aspecto de retirado directamente dos adereços dos filmes do Harry Potter) sempre revelador da verdade, diz-lhe que ela é de facto a Miss Universo do Reino até ao dia em que Branca de Neve atinge a maioridade. E aqui surgem os problemas.
Já li algures numa crítica ao filme, que é difícil achar a Charlize Theron menos gira que a Kristen Stewart. Pois que é verdade. No entanto, penso que o espelho se refere à beleza exterior e interior da Branca de Neve. E em matéria de beleza interior, a menina de pele branca e lábios vermelhos bate a outra aos pontos.
Filme com boa dose de fantástico, uma Charlize Theron que prova que é capaz de se entregar de corpo e alma tanto a uma produção como Monster como a outra mais comercial como esta da Branca de Neve & o Caçador, um Bob Hoskins irreconhecível no papel de um dos anões e um guarda-roupa que não poderia ser de outra senão de Mrs Colleen Atwood, colaboradora assídua dos filmes do Tim Burton e que já levou para casa 3 Oscars com os filmes Chicago, Memórias de uma Gueixa e mais recentemente, Alice no País das Maravilhas.
A diferença entre o conto orignal e o filme, é o destaque que tem neste último, a personagem do Caçador, quase eclipsando o principe encantado. Ah e também a ausência do vestido e do penteado piroso que tão bem conhecemos da protagonista. Branca de Neve em armadura é bastante mais aceitável, até porque esta é uma mulher mais dura e mais corajosa, a anos luz do ser frágil que a Disney nos passou em 1937.
Comecei a ver a adaptação televisiva dos livros do autor americano George R.R Martin no último episódio da primeira temporada. Gostei tanto que tratei logo de preencher as lacunas resultantes de ter falhado todos os episódios anteriores. Infelizmente, ainda hoje, há personagens e conflitos que não domino talvez devido ao facto de me parecerem ultrapassar a barreira dos 100. Tento-me então concentrar nas famílias Lannister e Stark que me parecem ser as centrais.
Sendo a única excepção o Downton Abbey, há muito tempo que não via uma série de época com tanta qualidade. Se esquecermos a questão de que em A Guerra dos Tronos não circulam seres pouco humanos, quase que podemos encontrar semelhanças entre esta e as histórias de O Senhor dos Aneis, uma das obras mais geniais da Literatura de todos os tempos.
Repleta de personagens interessantes, não admira no entanto que a preferência do público vá para Tyrion Lannister, o anão que compensou a sua incapacidade física para a batalha com a inteligência, a astúcia e a estratégia de guerra. Com esta personagem, o actor Peter Dinklage conseguiu mesmo o Emmy para Melhor Actor Secundário em mini-série em 2011 e o Globo de Ouro em 2012 na mesma categoria.
Apesar da crueldade e da violência abundarem (em todos os episódios morre um bom punhado de personagens), é mais proveitoso para os mais sensíveis virarem a cara em determinadas cenas do que desisitirem de acompanhar a trama de todo. Sexo também há mas não da forma gratuita e repetitiva que se vê em Spartacus. Além disso, paisagens escolhidas a dedo, sobretudo as percorridas pela personagem Jon Snow; guarda-roupa irreprensível, principalmente a da ala masculina e por fim, um genérico com uma melodia que vale a pena ser ouvida com atenção.