domingo

A demência de Gabriel García Márquez

Hoje tomei conhecimento das notícias que têm circulado sobre as declarações de que Gabo estaria demente. Jaime García Márquez, irmão do famoso escritor colombiano anunciou a demência e o facto de que o autor de Cem Anos de Solidão não voltará a escrever, devido aos problemas de memória que o afectam.
Se há escritor cujas obras gostaria de continuar a ler por muitos e bons anos, esse será sem dúvida Gabriel Garcia Márquez. Com ele e com Isabel Allende, aprendi que não há como os latino-americanos para descreverem enredos, onde proliferam amores, tragédias, milagres, revoltas e um sem número de personagens que nunca se estrenham mas logo se entrenham. Quem por exemplo, consegue ficar indiferente à desgraça em que caiu o protagonista de "Ninguém Escreve ao Coronel"? Quem não sofre com o amor platónico de Florentino por Firmina durante mais de 50 anos em "O Amor nos Tempos de Cólera"?
O primeiro livro que li do escritor premiado com um Nobel em 1982, foi o Crónica de uma Morte Anunciada, livro fininho que devorei em 2 tardes. Seguiu-se um projecto mais ambicioso: Cem Anos de Solidão, que me obrigou a ter permanentemente ao lado do romance, um papel onde apontei a árvore genealógica da família Buendía-Iguarán. Impossível lidar com a obra de outra forma. Os vários personagens masculinos principais - pais, filhos, netos e bisnetos - têm pelo menos um destes nomes: Arcádio, José e Aureliano e a maior parte das vezes fazem-se combinações como José Arcádio ou Aureliano José. Sem a árvore é por vezes díficil detectar de quem o narrador está a falar, se do pai ou se do filho.  
Depois de Gabo e de Allende, aventurei-me com o Luís Sepúlveda e mais recentemente, Mário Vargas Llosa. Para mim é indiscutível que há algo que é comum a todos estes autores da América Latina: o carisma das personagens e o poder dos sentimentos, sobretudo quando toca a alterar um destino que parecia imutável. 
Demente ou apenas um pouco esquecido devido à idade avançada - já tem 85 anos - Gabo pode no entanto reformar-se sem problemas de consciência pois a sua obra está mais que feita e perdurará para sempre no Cânone da Literatura Mundial.       
Ontem o meu sobrinho que tem 4 anos, sentou-se ao meu lado depois de nos termos dedicado a colorir porquinhos num livro de desenhos e disse-me muito sério:
- Tia agora vamos descansar e pensar na vida...
Não sei o que tanto ele tinha para pensar sobre uma vida que nem a metade de uma década chegou mas a verdade é que estivemos assim uns bons 15 minutos a olhar para um quadro com uns motivos campestres que a minha mãe tem na sala de estar. Ele a reflectir sobre as suas aflições ou alegrias e eu a reflectir sobre as minhas.    

sábado

Um curso de culinária na Academia dos Sabores...

...  da Vaqueiro foi coisa que acabei de fazer. Correcção: não foi bem um curso, mas antes um workshop de 3 horas findo o qual nos sentámos à mesa para saborear o que tínhamos confeccionado com as próprias mãos. O espaço, no edifício da Unilever é espectacular, com bancadas muito ao estilo Masterchef. O grupo de "alunos" era constituído por 12 pessoas. Umas já tinham frequentado outro curso destes antes, mas para a maioria tratava-se de uma estreia. Fomos divididos em grupos de 2 e a mim calhou-me um partner com bastante mais experiência em pilotagem de fogões do que eu, o que me fez logo respirar de alívio. Sim, porque quando li pela primeira vez as receitas que tínhamos de executar, começaram logo os suores frios. Então eu que sou uma principiante, como poderia lidar com essa grande tarefa que era passar do papel para a mesa do jantar algo tão complexo como "Crocantes de frango com maçã assada e "rosti" de batata e cebola"? Imensurável problema, pensei! Vou sair daqui humilhada. Felizmente não foi esta a receita que me calhou mas antes o "Fusili ao alhinho com duo de carnes em molho de tomate e rúcula". Parece coisa difícil e cara, aí de custar uns 27 Euros num restaurante fino, tal o tamanho do nome do prato. Pois que não é. Tanto que eu consegui realizar na perfeição todos os passos. A parte de ter feito um molho de tomate, natas e alecrim com "a consistência certa" - palavras do Chef professor - deixou-me para lá de orgulhosa. 
A experiência será com certeza para repetir. O mais agradável da noite foi o jantar com 11 pessoas desconhecidas que estavam perfeitamente à vontade, como se estivessem entre amigos de longa data. E foi engraçado perceber que por vezes está-se tão bem entre gente que acabámos de conhecer como com gente que se conhece há uma vida. 

P.S - Também muito agradável foi o prazer que as papilas gustativas de todos experienciaram ao tomarem contacto com um bolo surpresa de 2 chocolates com suspiros e framboesas. Aconteceu magia.



   

quinta-feira

O Super Bock Super Rock começou hoje. Apesar de todos os cartazes dos festivais de Verão terem sempre uma ou outra opção tentadora, decidi estar presente apenas no Optimus Alive para ver a Florence + the Machine e os The Cure. Após problemas em arranjar companhia para o tão desejado certame (quase todos os meus amigos optaram antes pelo dia do concerto dos Radiohead), a coisa finalmente compôs-se. Colei-me a um grupo Sub18. Pois que vai ser um bonito regresso ao passado e às loucuras da adolescência. Mas só enquanto espectadora. Já avisei um dos elementos do grupo que não irei tomar conta de ninguém, nem irei fazer relatórios aos progenitores das atitudes menos próprias que testemunhar. Serei a prima cool. Podem-se meter em todos os sarilhos típicos da idade do armário à vontade que assistirei impávida e serena e não intervirei. Quanto muito, colocar-me-ei à disposição para fazer um telefonema curto a alguns pais dizendo algo do género: "olhe aqui o seu filho abusou da vodka com laranja e agora está convencido que o chão do recinto é a cama onde se deita todos os dias, é melhor vir buscá-lo"; ou então: "olhe o seu filho abusou do absinto e anda a apalpar tudo o que é moça comprometida, o que é o mesmo que dizer que anda a pedir que lhe consertem os dentes sem recurso a aparelhos". 
É que tendo em conta o preço do bilhete, não posso pôr em risco um belo concerto com este tipo de distracções. Além disso, desconfio que os jovens elementos do grupo ficar-me-ão eternamente gratos se eu fechar os olhos a certas coisas. What happens in Alive stays in Alive. 

   

segunda-feira

O 4º aniversário da Zilian...

... vai ser devidamente festejado no dia 4 no Largo do Camões. Entre as 17h00 e as 20h00 vai-se inverter a tradição e serão as convidadas a receber presentes e não a aniversariante. Há 100 pares de sapatos para distribuir, entre outras oferendas. A não perder!

sexta-feira

Malinha do mais vintage que há...

Este tesourinho de prata nada deprimente e que eu adoro, tem mais de 60 anos. Era da minha madrinha e já se passeou por muita festa tanto na década de 1950 (nas mãos dela) como nestes últimos 10 anos (nas minhas mãos). Vai outra vez sair à rua na boda que tenho no dia 21 de Julho. 

  

quinta-feira

O Caminho de Santiago

Sempre gostei de andar. De andar muito. Para mim, caminhada que se preze deve durar no mínimo um bom par de horas. Por isso é que já há algum tempo que faz parte dos meus planos fazer o Caminho de Santiago de Compostela. Dizem que o percurso francês é mais bonito mas isso serão outras núpcias. Coisa em que talvez me meterei quando for reformada mas ainda não pertencente a uma qualquer brigada do reumático. 
No Atrium Saldanha encontra-se presentemente uma exposição de fotografias subordinadas a este tema. As imagens, entre as quais a de um peregrino solitário na bruma, fizeram-me pensar que talvez já esteja na altura de começar a pôr mãos à obra. Não é que o caminho esteja para fechar para obras. É que há coisas que vamos adiando, adiando continuamente e quando damos por nós, a vida já não nos permite dar "aquele passo". Literalmente. Enquanto caminho, penso, tomo decisões, recordo que tenho de fazer isto ou aquilo, escuto-me. 
Diz quem já se aventurou sozinho que nunca se está verdadeiramente isolado na caminhada. Será normal encontrar-se facilmente outros peregrinos. Além disso, ao passar-se nas aldeias, sobretudo nas mais pequenas, as pessoas aproximam-se com frequência para dar informações ou qualquer outro tipo de ajuda. E depois há os conventos e as pousadas que servem propositadamente os peregrinos. Aí será possível pernoitar e tomar uma refeição desde que se seja detentor do Passaporte do Peregrino. 
Conheça quem tenha feito o percurso a partir do Porto e de bicicleta. Disse-me que foi uma das melhores experiências e/ou viagens da sua vida. Porque fazer o Caminho de Santiago não é só religião ou desporto - os principais motivos que levam as gentes a percorrê-lo - é também contacto com outras nacionalidades, contacto com a gastronomia, arquitectura, história e até crenças populares dos locais por onde se passa. 
A melhor descrição que já encontrei do Caminho foi no livro Terapia de David Lodge um dos meus preferidos. A personagem principal depois de ter experimentado todas as formas de terapia para curar a depressão onde se encontrava mergulhado, resolve fazer o famoso percurso. E a sua vida altera-se para sempre. 
Caso também eu o faça não sei se a minha vida se irá alterar. Conto apenas na lista de certezas, com uma bela dor em todos os meus músculos. Calculo que até o cabelo me irá doer.