Há alturas na vida em que uma pessoa precisa de uma mudança radical. O desejo de mudar vai-se instalando timidamente e quando damos por isso já tomou conta de nós. Mas mudar o quê? Mudar de casa, mudar de emprego, de carro, de cidade, de país, de cara metade? Ou que tal, de tudo? Mudanças ambiciosas estas. Qualquer uma delas requer pensar duas vezes, ponderar prós e contras, pedir conselho junto de família e amigos. Idem para um corte de cabelo radical. Uma mulher passa dois terços da sua vida com uma cabeleireira pelo meio das costas, só variando a cor e o tamanho da franja e de um dia para o outro começa a ter ideias de a pôr em contacto com uma tesoura. Primeiro coloca a hipótese, depois começa a gostar e a habituar-se à ideia e por fim toma a grande decisão. Resultado: cabelo pelo queixo.
Foi esta a mudança radical a que me submeti ontem. Ainda estou em recuperação. Sinto-me nua e sem forças. Aconteceu-me o mesmo que ao Sansão quando a Dalila lhe cortou as madeixas, essa grande vagabunda. Mal consigo sorrir. Levanto apenas um pouco o lábio superior quando ouço uma piada que em circunstâncias normais me arrancaria uma gargalhada sonora.
Apesar dos elogios e de até já ter ouvido blasfémias do estilo "estás muito melhor do que antes", tal como diria a personagem de Meryl Streep no final do filme A Dúvida, tenho de confessar que " Tenho dúvidas meu Deus, tenho muitas dúvidas"
Agora não me resta outra alternativa senão aguardar pacientemente que o meu corpo cumpra o seu dever e reponha, com o tempo, a normalidade no meu cabelo.





















