Esta semana oficializei a minha decisão de cortar relações com a comunicação social. Para mim acabaram-se as notícias deprimentes! Elas existem, é verdade, mas recuso-me a levar constantemente com elas. Todas as manhãs passo por um quiosque que dá destaque ao Correio da Manhã. Os títulos vão desde "Ordem para despedir na Função Pública" a "Estado sem verba para salários e pensões". Ora começar o dia a ler estas pérolas não é propriamente agradável.
A depressão nervosa pode ter origem em vários factores e descobri recentemente que a comunicação social e as suas contínuas notícias deprimentes podem ser um deles.
Durante metade da minha vida quis ser jornalista. O desejo passou-me quando um dia, já depois de estar na Faculdade de Letras a estudar para ser a professora que nunca fui, ouvi uma linda reportagem na televisão. Era Natal e o tema da reportagem era o facto de as pessoas estarem a preterir o comércio tradicional pelas grandes superfícies. O jornalista foi então para a zona da Baixa / Chiado interrogar os comerciantes para saber se assim era.
Eis que entrevistam o proprietário de uma Óptica. O senhor, sem hesitar, disse que de facto o negócio não estava a correr bem sobretudo numa época como aquela na qual se esperavam mais vendas.
No momento em que visionei isto, interroguei-me: mas quem é que oferece óculos graduados a outrém no Natal? Que raio de exemplo é este em que foram pegar? Quem é que entra numa Óptica no Natal e diz: olhe embrulhe-me aí este parzinho de óculos tão bonitos e ponha aí nas lentes umas 2 ou 3 dioptrias, que é para a minha nora?
A comunicação social para mim ficou ali desacreditada, sobretudo porque sou assídua da zona da Baixa/ Chiado e no Natal, já vi eu com estes olhinhos que ora são verdes ora são castanhos, uma pessoa tem de pedir licença a um pé para mexer o outro. Não se rompe tal é a cambada que resolve ir ver as luzes natalícias e depois fica para umas compritas.
Outra que uma vez ouvi no telejornal foi que Portugal era o país da Europa com mais feriados. Devem-se ter esquecido que a Espanha pertence à Europa porque se há país que tem feriados, é aqui a vizinha do lado.
O que quero dizer com toda esta conversa é que de facto as coisas estão más em Portugal. Eu que nunca fui de alinhar em conversas do estilo " este é o pior dos países para se viver " admito que isto nos próximos tempos não vai ser fácil. No entanto, acho que a comunicação faz um bom uso da hipérbole. Os media adoram um bom drama, adoram massacrar as pessoas com cenários bem negros, adoram alimentar a ideia de que somos muito maus a todos os níveis.
Mais facilmente se divulga um aspecto negativo desta terra lusa ou dos lusos do que se informa o público de que ganhámos este ou aquele prémio.
Como poderemos reerguermo-nos se todos os dias entram nas nossas casas estas vozes a dizer-nos quão maus somos?
A partir de agora vou hibernar de notícias tristes. Se o resultado for tornar-me uma pessoa ignorante, já dizia Shakespeare que na amizade e no amor - e eu acrescento: na situação financeira de um país - é-se mais feliz vivendo na ignorância de certos factos.
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