Não é novidade para ninguém que os contos de fadas estão cheios de episódios de terror e violência. Na minha humilde opinião o mais terrífico é o conto do Hensel e Gretel. Não sei quem é que teve a brilhante ideia de adormecer crianças narrando-lhes a triste história dos 2 irmãos que se perderam na floresta e foram parar à cabana de uma bruxa canibal, mas só lhe posso tecer críticas. O conto da princesa e do sapo também não é agradável ao ouvido. E temo por aquelas meninas crédulas e ingénuas que um dia possam ouvir este romance de cordel e desatar a beijar tudo o que é sapo, na esperança que se dê uma extreme makeover no bicho e... cá vai príncipe!
Mas não nos desviemos do assunto que aqui me traz e falemos da Branca de Neve, história também ela repleta de crueldade. Ontem fui ver o filme. Um realizador e um argumentista juntaram-se e surge uma versão cinematográfica, para maiores, vá, de 14 anos. O tema central da trama: a estética. Uma mulher quer permanecer bela e jovem para sempre. Nada de novo até aqui. A L'Oreal e a Garnier andam há anos a trabalhar nesse sentido. Entretanto, Oscar Wilde, um homem à frente do seu tempo, resolve colocar pela primeira vez na literatura, este desejo profundo do mulherio numa personagem masculina. Surge O Retrato de Dorian Gray. Este, tal como a Rainha Má da Branca de Neve não quer nada com a velhice e o reumático. Ele deposita as suas rugas num retrato, ela, segundo o filme, consome a energia de novatas e uma vez compostinha, pergunta a opinião de um espelho sobre a sua beleza. O espelho, (com aspecto de retirado directamente dos adereços dos filmes do Harry Potter) sempre revelador da verdade, diz-lhe que ela é de facto a Miss Universo do Reino até ao dia em que Branca de Neve atinge a maioridade. E aqui surgem os problemas.
Já li algures numa crítica ao filme, que é difícil achar a Charlize Theron menos gira que a Kristen Stewart. Pois que é verdade. No entanto, penso que o espelho se refere à beleza exterior e interior da Branca de Neve. E em matéria de beleza interior, a menina de pele branca e lábios vermelhos bate a outra aos pontos.
Filme com boa dose de fantástico, uma Charlize Theron que prova que é capaz de se entregar de corpo e alma tanto a uma produção como Monster como a outra mais comercial como esta da Branca de Neve & o Caçador, um Bob Hoskins irreconhecível no papel de um dos anões e um guarda-roupa que não poderia ser de outra senão de Mrs Colleen Atwood, colaboradora assídua dos filmes do Tim Burton e que já levou para casa 3 Oscars com os filmes Chicago, Memórias de uma Gueixa e mais recentemente, Alice no País das Maravilhas.
A diferença entre o conto orignal e o filme, é o destaque que tem neste último, a personagem do Caçador, quase eclipsando o principe encantado. Ah e também a ausência do vestido e do penteado piroso que tão bem conhecemos da protagonista. Branca de Neve em armadura é bastante mais aceitável, até porque esta é uma mulher mais dura e mais corajosa, a anos luz do ser frágil que a Disney nos passou em 1937.
A ver, sem dúvida.
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